quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Hoje eu fiquei sabendo de uma coisa inacreditável: o professor doutor todo poderoso me deu 10 no estágio supervisionado, mesmo me chamando de burra e outras delicadezas do gênero. É inacreditável o que um ser humano pode fazer para desestruturar o outro. Cada dia que eu conheço um pouco mais sobre o funcionamento psíquico, mas eu me choco com determinados comportamentos. É lastimável ver que o estágio poderia ser mais produtivo, menos dolorido e com outras tintas.
O professor doutor que escrever uma revista sobre o final do Padac e sugeriu que os estagiários escrevam sobre seus atendimentos domiciliares e deu a ideia de eu e minha dupla escrevermos sobre o caso de dona I, uma senhora que foi abandonada por seu companheiro e passou cinco anos sem realizar seu luto. Após um período sendo atendida em sua residência, o professor em supervisão sugeriu que nós falássemos pra ela que a dor que ela estava sentindo era muito mais comum do que ela pensava, pois muitas pessoas passavam por problemas iguais aos dela. Depois disso, ela passou por um período que não queria nos receber. Inclusive um dia em que eu e minha dupla iríamos dar um perdido na casa dela (ela nunca estava disponível para uma visita domiciliar), ela me viu na ladeira e saiu de fininho como se não quisesse que eu a visse. Que situação, pois em um milésimo de segundo eu ponderei: que p* de tratamento é esse que vc tem que correr literalmente atrás do paciente? Se ela não quer me receber e foge de mim, deixa ela pra lá. Mas, toda resistência é do analista e lá vai eu ladeira abaixo correndo de salto alto atrás de dona I. Chego eu do lado dela e falo 'que surpresa encontrar a sra justamente na ladeira!' (me sentindo uma hipócrita por mentir, por correr átrás do paciente e por não acreditar neste modelo de clínica). Enfim. Ela elaborou o seu luto e trouxe um significante muito legal no final do tratamento: o divórcio do 1º casamento tinha saído há uns cinco anos, mesma época que o companheiro havia desaparecido, mas agora ela dizia que pegaria o papel, pois ela queria ser solteira novamente, que quer conhecer uma pessoa para recomeçar sua vida.
Essa sra me deu uma grande lição: é possível sim fazer do modelo psicanalítico uma clínica ampliada, pois a escuta é diferenciada e o sujeito independe de setting para se manifestar.

Um comentário:

Lélia Maria disse...

veja só, a tua persistência fez com que ela economizasse o resto dos anos que lhe resta. imagine arrastar o luto até o fim? e parabéns pelo 10, manda o doutor pra aquele lugar, pq é lá que ele merece ficar. beijos.